Batendo num cachorrinho para assustar um cachorrão

Como é estranho alguém bater num cachorrinho para assustar um cachorrão, chamou-me à atenção esta expressão de Lutero num sermão escrito em 1519, intitulado Um Sermão sobre a Contemplação do Santo Sofrimento de Cristo.

A moda da religiosidade da época era a contemplação. Ao refletirem sobre o sofrimento de Cristo, as pessoas revoltavam-se contra os judeus que o condenaram, malhavam o Judas pela traição, mas não refletiam sobre seus próprios pecados e não se viam envolvidos na História da Paixão de Cristo. No contexto, Lutero lembra as palavras de Jesus endereçadas às mulheres que choravam por causa do seu sofrimento: “Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim, mas por vocês e pelos seus filhos!” (Lc 23.28). E explica: “É como se ele quisesse dizer: ‘Vejam no meu martírio o que vocês mereceriam e o que lhes acontecerá’. Neste caso, é verdade que se bate num cachorrinho para assustar o cachorrão”.

Com essa expressão Lutero queria dizer que todo o proveito do sofrimento de Cristo depende de a pessoa chegar ao conhecimento de si mesma, reconhecer o seu pecado e confiar inteiramente no perdão que Cristo conquistou.

Por isso sugere três atitudes:

1ª) Ver no sofrimento de Cristo os próprios pecados. “Cristo é atormentado física e psiquicamente de forma terrível em nossos pecados. Você é aquele que, através do pecado dos judeus estrangulou e crucificou o Filho de Deus.”

2ª) Confiar inteiramente no perdão dado em Cristo. “Você tira o seu pecado de cima de você e atira-o para cima de Cristo. Acredite firmemente que as chagas e os sofrimentos de Cristo são seus pecados e que ele os carrega e paga por eles, conforme Isaías 53.6 diz: ‘Deus fez cair sobre ele o pedado de todos nós’. Você achará o coração paterno divino e bom”.

3ª) Agir como filho de Deus perdoado em Cristo. “ O sofrimento de Cristo também deverá ser um exemplo para toda a sua vida. Quando tiver que fazer ou deixar de fazer algo que o aborrece, pense como Cristo, amarrado e preso, é levado de lá para cá; se você é atormentado pelo orgulho, repare o quanto seu Senhor é debochado ao lado dos malfeitores; se o ódio, inveja ou sentimento de vingança atormentam você pense nas lágrimas e nos gritos de Cristo quando orou por você e por todos os inimigos dele”.

Exercitar essas atitudes sugeridas por Lutero é uma maneira bem proveitosa para celebrarmos o 494º. Aniversário da Reforma.

Edgar Lemke

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