Para que eu lhe pertença

Confesso que quando eu era mais jovem e ouvia a expressão “mordomia cristã”, nunca entendia bem o que ela queria dizer. Logo me vinha na cabeça que deveria ter uma relação com Alfred, o mordomo do Batman, mas eu tinha plena certeza de que o que eu fazia na minha vida não era nada parecida com as atividades deste mordomo e ele não me parecia muito cristão.

Pois bem, eu precisei crescer um pouco mais para enxergar o que é mordomia na prática. Levei certo tempo para entender o tamanho privilégio que é ser mordomo: alguém que não é dono da casa, mas que desfruta da total confiança do seu patrão em sua capacidade de administrar os seus bens e cuidar dos demais que vivem com ele.

Mas também descobri que isso é um processo… não é um estado absoluto onde podemos estagnar num grau de “mordomo eficiente” e daí é só para adiante. Na verdade, a nossa vida de mordomia é um espiral: ora somos mordomos bons e eficientes, ora somos maus e preguiçosos. O que fazer então? Pedir demissão deste emprego que sequer pedimos?

Bom, a resposta é não. E há algo que pode nos ajudar sempre a entender um pouco melhor o que significa ser mordomo e como lidar com as dificuldades deste lindo serviço. É a perspectiva que Martinho Lutero traz ao escrever em seu Catecismo Menor, a sua explicação do segundo artigo do Credo: “Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também nascido da virgem Maria é meu Senhor. Pois remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro e com prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como Ele ressuscitou dos mortos, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade”.

Em novembro, quando nos dedicamos a falar um pouco mais sobre mordomia cristã, essa explicação de Lutero também tem muito a nos dizer. Nós pertencemos a Cristo. E isso não foi uma escolha nossa, foi ele quem decidiu ser bom para nós e não o contrário. Assim como quando dizemos que somos mordomos de Deus, cabe lembrar que nenhum de nós deixou currículo no escritório dele pedindo esta vaga. Logo, nós não somos administradores dos bens do Senhor porque escolhemos isso, mas porque Deus é tão bom que nos dá essa oportunidade.

Porém, para que isso acontecesse, para que nós pertencêssemos a Deus, Cristo precisou nos comprar com o seu sangue e assim mudar toda a perspectiva da mordomia: não mais cuidamos do próximo para adquirir méritos com Deus, mas fazemos por amor. Não mais para que Cristo nos ame, mas sim porque o amor dele é irradiado em nós.

Assim, lembrem-se sempre de nossa missão aqui na Terra. Somos mordomos porque administramos e cuidamos daquilo que sequer é nosso. Por isso, não oferte apenas o que sobra no final do mês ou o que sobra em sua despensa, mas mude a perspectiva para lembrar de que TODA a vida do Cristão deve ser uma oferta agradável a Deus através do serviço ao seu próximo. Que ele nos auxilie sempre nessa missão. Amém.

Jordan W. Gowert Madia