Quando a arte se volta contra o artífice

25 de maio de 2018 by edgar-lemke

Lutero constatou que Deus se incomodou tanto com a morte escolhida por Adão, que sequer nomeia essa palavra ao falar das consequências de sua desobediência. Deus optou por dizer: “Tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19). Lutero continua: “A tal ponto chegou a rivalidade de Deus contra o pecado, por ter causado a morte, que outra coisa não faz do que armar a própria morte contra ele”. Aí o Reformador se vale de uma frase do poeta romano Ovídio para reforçar seu argumento: “O artífice da morte morre por sua própria arte”. E continua: “Este é o mais belo espetáculo: ver como o pecado é arruinado não por obra alheia, mas por sua própria obra. Pois também Golias foi uma figura do pecado, um gigante terrível para todos, exceto para o pequeno Davi, isto é, Cristo, que o prostrou sozinho, tendo-o decapitado com sua própria espada” (Obras Selecionadas, v. 2, p. 36,37).

A greve dos caminhoneiros, que está parando o País e traz desabastecimento aos postos, mercados, hospitais, e assusta a população, está fazendo a arte se voltar contra o artífice. Na edição 2015 da greve dos caminhoneiros um lado da população saiu às ruas gritando “Fora Dilma”, sob a liderança de quem ocupou o poder um ano depois. Agora, na edição 2018, o governo, desacreditado, assessorado por vários ministros envolvidos em corrupção e com alto índice de rejeição, está com dificuldade para achar uma solução. Não aparece o slogan “Fora Temer” porque é ano de eleição e seu governo tem pouco mais de seis meses pela frente.

Também em política a arte pode se voltar contra o artífice. Brigar por um lado só faz sentido se favorece o todo. Um momento tão conturbado como o que estamos vivendo requer um pacto federativo. Nós, cristãos, precisamos participar desse pacto, começando por dobrar os joelhos em atenção ao pedido do apóstolo Paulo: “Em primeiro lugar peço que sejam feitos orações, pedidos, súplicas e ações de graças a Deus em favor de todas as pessoas. Orem pelos reis e por todos os outros que têm autoridade, para que possamos viver uma vida calma e pacífica, com dedicação a Deus e respeito aos outros. Isso é bom, e Deus, o nosso Salvador, gosta disso. Ele quer que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (1 Tm 2.1-4).

Edgar Lemke

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